A Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da Delegacia de Proteção Animal (DPA), concluiu uma das mais extensas investigações sobre a prática de Farra do Boi no estado, resultando no indiciamento de 40 homens pelos crimes de maus-tratos a animais e associação criminosa. O inquérito é fruto de um trabalho de inteligência que superou o anonimato desses eventos e a dificuldade de acesso aos locais das ocorrências em Governador Celso Ramos.
Diferente das abordagens convencionais, que costumavam responsabilizar apenas quem era flagrado no momento do ato, a Polícia Civil estruturou a investigação para identificar toda a cadeia logística. Ao longo de mais de um ano, foram analisadas imagens e realizadas quebras de sigilo de dados telefônicos e telemáticos, fundamentais para vincular 22 episódios ilícitos, alguns sem registro formal prévio, e individualizar a conduta dos envolvidos.
O uso da tecnologia permitiu que os investigadores chegassem aos organizadores, financiadores, transportadores e vendedores dos bovinos. A investigação revelou a existência de grupos organizados para a arrecadação de valores (as chamadas “vaquinhas”), destinados tanto à compra dos animais quanto ao pagamento de advogados e de multas administrativas aplicadas aos participantes abordados anteriormente.
A configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal, com rateio de valores até mesmo de prejuízos, demonstrando uma divisão de tarefas estruturada.
A Polícia Civil reitera que a Farra do Boi não é cultura, mas tortura, representando um retrocesso ético. Os indiciados respondem agora perante o Ministério Público e o Poder Judiciário. As penas para o crime de maus-tratos, somadas às de associação criminosa, podem chegar a quatro anos de prisão, além de multas que, na esfera administrativa, variam entre R$ 10 mil para participantes e R$ 20 mil para organizadores de cada ocorrência.
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