PCSC utiliza Psicologia e Cyberinteligência para prevenir ameaças no ambiente escolar

A prevenção de atos violentos no ambiente escolar deixou de ser uma tarefa baseada apenas em suposições para se tornar uma disciplina técnica rigorosa na Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC). Durante o segundo dia do Encontro Nacional Escola Segura, em Florianópolis, a Diretoria de Inteligência detalhou o fluxo de trabalho que permite à instituição identificar e interromper trajetórias de violência antes que qualquer plano seja executado.

 

O processo começa com o que a polícia chama de “busca ativa”. O agente de polícia Bruno Vieira explicou que o Cyberlab da PCSC realiza um monitoramento constante de fontes abertas e redes sociais, além de cruzar dados de boletins de ocorrência e denúncias anônimas recebidas pelo 181 ou pelo portal oficial.

 

“Não esperamos o crime acontecer. Analisamos sinais de radicalização e o chamado “vazamento de intenção”, que ocorre quando o suspeito começa a manifestar planos ou fixações em fóruns e comunidades digitais”, pontuou Vieira. Em um dos casos apresentados, a identificação de imagens de armas brancas em redes sociais de uma adolescente permitiu que a polícia agisse preventivamente com mandados de busca, apreendendo materiais que confirmavam o risco iminente.

 

O dado digital, no entanto, ganha precisão quando submetido ao olhar clínico. O psicólogo policial Kleber Santos demonstrou como a PCSC aplica os protocolos do Serviço Secreto dos EUA para avaliar a periculosidade de um indivíduo. Detalhou que a análise vai além do comportamento agressivo comum. Busca-se identificar a “assinatura comportamental” do agressor, que muitas vezes inclui:

 

  • Escala de Violência: O aumento progressivo da agressividade contra familiares, colegas e até animais;
  • Vitimologia Direcionada: Ataques ou ameaças focadas em grupos específicos ou minorias, indicando um padrão de ódio estruturado;
  • Ideação e Preparação: O consumo obsessivo de conteúdos sobre massacres históricos (como o efeito copycat) e a aquisição de simulacros ou máscaras.

 

Outro ponto de destaque na apresentação foi sobre o alerta do “Efeito Copycat” — quando agressores buscam replicar massacres históricos. Os palestrantes demonstraram que há uma estética recorrente utilizada por indivíduos radicalizados, que inclui o uso de máscaras específicas, vestimentas escuras e a celebração de datas infames.

 

“O monitoramento da PCSC identificou que muitos desses adolescentes não agem de forma isolada, mas estão inseridos em comunidades digitais que incentivam a automutilação e a violência como forma de notoriedade”, explicou Kleber Santos. A análise técnica da PCSC mostrou que a intervenção precisa ocorrer no momento em que o adolescente deixa de ser apenas um espectador desses conteúdos e passa a produzir material próprio, sinalizando a transição para a fase de preparação.

A eficácia do modelo catarinense reside na capacidade de resposta após a identificação do risco. Ao confirmar uma ameaça real, a PCSC não se limita ao cumprimento de mandados de busca e apreensão de dispositivos eletrônicos. Existe um fluxo de pós-intervenção que envolve:

 

  • Trabalho especializado: O Cyberlab realiza a extração de dados para identificar outros possíveis envolvidos ou cúmplices em plataformas de conversa criptografadas.
  • Acolhimento e Saúde Mental: Diferente de uma prisão comum, o foco em casos que envolvem menores é o encaminhamento para medidas socioeducativas que incluam acompanhamento psiquiátrico rigoroso e monitoramento de tratamentos farmacológicos.
  • Desarticulação de Grupos: A investigação busca “derrubar” células de influência em aplicativos de mensagens, cortando a comunicação do agressor com grupos que alimentam a ideação violenta.

A conclusão da apresentação do Bruno e do Kleber deixou uma mensagem clara: a segurança pública é apenas uma das engrenagens. Para que a prevenção seja plena, é indispensável a atuação do Comitê INTEGRA e a comunicação fluida entre a Polícia Civil, o Ministério Público, a Secretaria de Educação e a Assistência Social.

“Avaliar uma ameaça conforme os padrões internacionais exige identificar, avaliar e, acima de tudo, gerenciar o caso no longo prazo”, finalizou Kleber. O encerramento da palestra reforçou que Santa Catarina hoje não apenas monitora dados, mas constrói uma rede de proteção humana capaz de resgatar o jovem antes que a tragédia aconteça.



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